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Reflexões sobre Arquitetura Corporativa na era da IA Agêntica

Existe uma cena que provavelmente todo arquiteto corporativo com alguns anos de experiência já viveu.


Estamos em uma reunião de arquitetura. O diagrama está impecável. Aplicações organizadas, integrações identificadas, responsabilidades definidas, tecnologias posicionadas em suas respectivas camadas. As caixas estão alinhadas, as setas fazem sentido e, aparentemente, existe uma lógica por trás de tudo aquilo.

Até que alguém faz uma pergunta bastante simples:


“Mas isso representa o que realmente está rodando em produção hoje?”


E então surge aquele pequeno silêncio. Talvez não exatamente.


Uma integração mudou. Um time criou um novo fluxo. Uma configuração foi alterada. Uma API passou a ser consumida de uma maneira que não estava prevista. Um fornecedor atualizou uma solução. Uma regra de negócio foi incorporada diretamente em algum componente.


O diagrama continua limpo, o sistema, entretanto, já tomou outro caminho.

Esse distanciamento entre a arquitetura documentada e a arquitetura real não nasceu com a Inteligência Artificial. Quem trabalha com Arquitetura Corporativa conhece esse problema há muito tempo, mas existe algo diferente acontecendo agora.


A IA, principalmente com a evolução da IA Agêntica, não está apenas aumentando a velocidade com que esse distanciamento acontece, ela está mudando a própria natureza do problema.

E talvez isso nos obrigue a repensar algumas das premissas sobre as quais construímos a prática da Arquitetura Corporativa nas últimas décadas.


Construímos arquitetura para um mundo relativamente previsível.


Frameworks como TOGAF, Zachman e diferentes métodos de arquitetura surgiram em um contexto no qual algumas premissas pareciam razoavelmente estáveis.


Os sistemas eram predominantemente determinísticos, as aplicações possuíam fronteiras relativamente conhecidas, as integrações poderiam ser inventariadas e as mudanças relevantes aconteciam através de projetos, releases e processos formais de implantação.


Existia uma premissa importante: o comportamento dos sistemas poderia ser razoavelmente inferido a partir de sua arquitetura.


Por isso, durante muito tempo, a Arquitetura Corporativa funcionou como uma espécie de cartografia da organização.


Mapeamos capacidades de negócio, processos, aplicações, dados, integrações, tecnologias e infraestrutura. Construímos arquiteturas AS-IS, definimos arquiteturas TO-BE, identificamos gaps e estabelecemos roadmaps de transformação, o mapa orientava a transformação.


Naturalmente, sempre existiu alguma distância entre o mapa e o território. Mas tratávamos essa diferença principalmente como um problema de governança ou execução. A implementação deveria convergir para a arquitetura.


A Inteligência Artificial começa a desafiar essa lógica.


A primeira onda da IA ainda cabia dentro das caixas


Quando as primeiras aplicações mais sofisticadas de IA começaram a entrar nas empresas, conseguimos incorporá-las aos modelos tradicionais de arquitetura sem grandes dificuldades.


Um motor de recomendação poderia ser representado como um componente.

Um modelo de detecção de fraude poderia aparecer como um serviço.

Um modelo de crédito poderia ser disponibilizado através de uma API.

Um pipeline poderia cuidar do treinamento e retreinamento.


Do ponto de vista arquitetural, continuávamos trabalhando com caixas e relacionamentos. Naturalmente, esses componentes possuíam características probabilísticas, mas isso parecia administrável através de observabilidade, métricas, thresholds, monitoramento e governança de modelos. A estrutura continuava relativamente estável.


Mas, a IA Agêntica muda esse cenário.


Quando a arquitetura começa a produzir novos caminhos


Imagine agora um agente corporativo conectado a dezenas de APIs, bases de dados, sistemas internos, ferramentas e outros agentes.


Ele recebe um objetivo, interpreta esse objetivo, planeja, seleciona ferramentas, consulta informações, executa ações, avalia resultados, corrige sua estratégia e e eventualmente tenta novamente.


Nesse cenário, estamos diante de algo diferente de uma aplicação tradicional.


O agente não apenas consome a arquitetura, em determinadas circunstâncias, ele passa a criar novos caminhos dentro dela.


Um agente conectado a dezenas de APIs pode estabelecer sequências de execução que nenhum arquiteto desenhou explicitamente. Pode combinar serviços que nunca haviam sido utilizados conjuntamente. Pode produzir novos padrões de dependência entre sistemas e isso cria uma questão interessante.


Como representar arquiteturalmente um sistema cujo comportamento pode mudar dinamicamente durante sua própria execução?


Não se trata apenas de atualizar o diagrama mais rapidamente. Talvez estejamos diante de uma limitação mais fundamental. O problema passa a ser de representação.


O que a IA está expondo sobre nossa forma de fazer arquitetura


A IA Agêntica torna mais evidentes algumas fragilidades que, de alguma forma, sempre existiram na Arquitetura Corporativa.


A primeira delas é a diferença entre estrutura e comportamento. Arquitetura tradicionalmente representa muito bem estrutura: aplicações, componentes, serviços, integrações, tecnologias e relacionamentos. Mas sistemas baseados em IA introduzem comportamento emergente.


Dois agentes podem utilizar exatamente o mesmo modelo, acessar as mesmas APIs e possuir arquiteturas praticamente idênticas em um diagrama.

Ainda assim, podem apresentar comportamentos completamente diferentes dependendo dos prompts, contexto, memória, políticas, ferramentas disponíveis e mecanismos de orquestração.


O desenho pode ser semelhante, o risco pode ser completamente diferente.


A segunda ruptura está relacionada ao tempo.


Grande parte dos mecanismos de governança arquitetural ainda opera em ciclos de

semanas ou meses. Projetos são avaliados. Arquiteturas são revisadas. Comitês aprovam decisões.


Mas uma simples alteração de prompt pode modificar o comportamento de milhares ou milhões de interações imediatamente.


Uma nova ferramenta adicionada a um agente pode criar novos caminhos de execução. Uma atualização de modelo realizada por um fornecedor pode modificar comportamentos sem que qualquer componente tenha mudado no nosso diagrama.


Talvez a arquitetura não esteja apenas ficando desatualizada. Talvez o próprio tempo da arquitetura esteja ficando diferente do tempo dos sistemas.


E existe ainda uma questão mais complexa: responsabilidade


Nos modelos tradicionais de arquitetura, conseguimos estabelecer responsabilidades relativamente claras. Existe um product Owner, existe um responsável pela aplicação, existe um solution Owner, existem arquitetos, existem fóruns de governança.


Mas o que acontece quando um agente possui autonomia para executar uma sequência de ações que nenhum indivíduo antecipou completamente?


Quem é responsável pela decisão?

Quem aprovou aquele comportamento?

Quem pode interrompê-lo?

Quem explica por que determinada ação aconteceu?


A responsabilidade deixa de estar associada exclusivamente a um componente ou indivíduo e passa a depender da interação entre modelos, agentes, dados, políticas, sistemas, pessoas e mecanismos de controle.


Esse talvez seja um dos desafios mais importantes para a arquitetura nos próximos anos.


As fronteiras dos sistemas também começam a desaparecer


Arquitetos gostam de fronteiras. Elas ajudam a organizar responsabilidades, domínios, sistemas e decisões, mas agentes desafiam essa lógica.


Uma aplicação tradicional possui um conjunto relativamente conhecido de integrações, já um agente possui um conjunto de possibilidades.


Seu caminho pode ser definido dinamicamente durante a execução.

Isso significa que a arquitetura deixa de representar apenas quais componentes estão conectados e passa a precisar compreender quais conexões podem acontecer, em quais condições e com quais consequências.


É uma mudança importante. Estamos migrando de uma arquitetura predominantemente estrutural para uma arquitetura que precisará compreender cada vez mais comportamento, contexto e intenção.


Existe também uma dívida de conhecimento


Talvez a IA esteja apenas tornando mais visível outro problema histórico da Arquitetura Corporativa. Grande parte do conhecimento arquitetural das empresas nunca esteve nos diagramas, está na cabeça das pessoas.


Está nas decisões tomadas durante reuniões, nas exceções que surgiram durante projetos, está naquela integração que “todo mundo sabe que funciona assim” e está naquele sistema legado que apenas três pessoas realmente compreendem.


Documentamos arquitetura, mas raramente conseguimos documentar todo o racional arquitetural.


Por que tomamos determinada decisão?

Quais alternativas foram consideradas?

Quais riscos foram aceitos?

Quais restrições existiam naquele momento?


Agora imagine esse problema em um ambiente no qual agentes começam a tomar milhares de microdecisões durante a execução. A dívida de conhecimento arquitetural pode crescer exponencialmente.


E surge outra pergunta bastante desconfortável:


Como governar aquilo que não conseguimos explicar?


Talvez o papel do arquiteto esteja mudando novamente


É neste ponto que considero essa discussão particularmente interessante.

Se o diagrama não é suficiente, isso significa que a Arquitetura Corporativa perdeu relevância?


Acredito exatamente no contrário.


Talvez estejamos entrando em um momento no qual o pensamento arquitetural se torna ainda mais importante. Porque o verdadeiro valor da Arquitetura Corporativa nunca esteve nos diagramas. Nunca esteve no TOGAF, nunca esteve no ArchiMate e nunca esteve nos frameworks. Essas são ferramentas.


O valor da arquitetura está na capacidade de compreender a organização como um sistema. Entender como estratégia, capacidades de negócio, processos, dados, aplicações, integrações, tecnologia, segurança e pessoas se relacionam.


Identificar dependências, antecipar impactos, reduzir complexidade, estabelecer princípios, orientar decisões e, principalmente, construir caminhos para levar a organização de uma situação atual para uma situação futura desejada.


A IA não elimina nenhuma dessas necessidades. Ela as amplifica.


Do arquiteto de componentes para o arquiteto de comportamentos


Talvez uma das transformações mais importantes esteja justamente aqui.


Durante décadas fomos treinados para arquitetar estruturas, agora precisaremos também arquitetar comportamentos.


Não será suficiente perguntar:


Quais sistemas estão conectados?

Precisaremos perguntar:


O que um agente pode fazer através dessas conexões?

Não será suficiente perguntar:


Quem pode acessar determinada API?

Precisaremos perguntar:


Em quais condições um agente pode decidir utilizá-la?

Não será suficiente perguntar:


Onde estão os dados?

Precisaremos perguntar:


Quais dados podem entrar no contexto de decisão de um modelo e quais consequências isso pode produzir?


E talvez a pergunta mais importante deixe de ser: “A arquitetura está aderente ao desenho aprovado?” e passe a ser: “O comportamento que está emergindo continua dentro dos limites que a organização considera aceitáveis?”


Essa é uma mudança profunda. Arquitetura passa a ser também arquitetura de confiança.


Quanto mais autonomia entregamos aos sistemas, mais importante se torna definir limites, guardrails, políticas, Observabilidade, rastreabilidade, identidade, autorização, gestão de contexto, auditoria, human-in-the-loop e mecanismos de interrupção.


Governança deixa de existir apenas nos comitês e passa a precisar existir dentro da própria arquitetura.


Isso significa que a Arquitetura Corporativa precisará se aproximar ainda mais de temas como governança de IA, segurança, dados, AI TRiSM, observabilidade de agentes e mecanismos de interoperabilidade.


Não para transformar o arquiteto corporativo em especialista em todos esses assuntos, mas para garantir que todas essas capacidades funcionem de maneira coerente dentro do sistema empresarial.


Porque existe uma diferença enorme entre uma empresa que possui dezenas de iniciativas de IA e uma empresa que desenvolveu uma verdadeira capacidade corporativa de operar

IA.


O problema não é adotar IA. É conseguir escalá-la.


É relativamente simples criar um piloto de IA, mas é muito mais difícil colocá-lo em produção.


Mais difícil ainda é escalar dezenas ou centenas deles mantendo segurança, governança, interoperabilidade, custos controlados e alinhamento estratégico.


É exatamente neste momento que muitas organizações começam a redescobrir a importância da arquitetura.


Porque transformação digital sempre foi muito menos sobre implementar tecnologia e muito mais sobre gerenciar dependências e complexidade.


Com IA não será diferente. Na verdade, provavelmente será ainda mais importante.

À medida que modelos, agentes, dados, APIs, plataformas e sistemas passam a formar ecossistemas cada vez mais dinâmicos, a ausência de arquitetura não produz liberdade, produz complexidade e complexidade acumulada inevitavelmente reduz velocidade.


Estamos construindo enquanto aprendemos


Talvez o aspecto mais interessante deste momento seja reconhecer que ainda não temos todas as respostas. Os artigos que originaram esta reflexão destacam como a literatura sobre os impactos estruturais da IA na Arquitetura Corporativa ainda é limitada. Isso significa que estamos construindo práticas enquanto as organizações implementam a tecnologia. Estamos experimentando, aprendendo, errando, criando novos mecanismos de governança, adaptando frameworks e descobrindo quais conceitos da Arquitetura Corporativa continuam válidos e quais precisarão evoluir.


Mas existe algo que provavelmente permanecerá, a necessidade de pensamento sistêmico.


O diagrama continuará importante. Só não será suficiente.


Continuaremos precisando de mapas. Continuaremos modelando capacidades, processos, aplicações, dados, integrações e tecnologias, continuaremos construindo arquiteturas AS-IS e TO-BE, continuaremos identificando gaps e roadmaps, mas talvez precisemos aceitar que, na era da IA Agêntica, a arquitetura não poderá representar apenas o que a organização possui. Precisará representar também o que seus sistemas podem fazer e, principalmente, o que a organização permite que eles façam.


Essa diferença parece pequena, mas não é.


Ela desloca a Arquitetura Corporativa de uma disciplina predominantemente preocupada com estruturas para uma disciplina cada vez mais preocupada com comportamentos, limites, decisões e consequências.


Enquanto isso, aquele diagrama continuará aberto na tela, organizado, coerente e bonito, mas o sistema continuará se movimentando lá fora criando conexões, tomando decisões, explorando novos caminhos com ou sem arquitetura.


A questão talvez não seja mais se precisamos atualizar nossos diagramas mais rapidamente.


A questão é outra:

Estamos arquitetando apenas a estrutura dos nossos sistemas ou também os comportamentos que estamos permitindo que eles tenham?


Na era da IA Agêntica, talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para a Arquitetura Corporativa.


Por: Daniel Rosa


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Fontes:


An Affordance Perspective on Generative AI in Enterprise Architecture

LEONARDO BANH , TUAN KHANG TRAN, AND GERO STROBEL: University of Duisburg–Essen, 45141 Essen, Germany


Architecting knowledge through AI-enhanced observability: A design science approach to enterprise architecture as a knowledge discipline

Aïssa Toumi, Samuel Fosso Wamba, Mouaad Hafsi.


Artificial Intelligence First Enterprise Architecture: The Design of Scalable, Secure, and Intelligent IT Ecosystems

Santthosh Saai Reddy Purmani


Effects of Artificial Intelligence on Enterprise Architectures - A Structured Literature Review

Jack Daniel Rittelmeyer: Institute of Computer Science - University of Rostock - Rostock, Germany


Past, current and future trends in enterprise architecture - A view beyond the horizon

Fabian Gampfera, Andreas Jürgensa, Markus Müllerb, Rüdiger Buchkremera,

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